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Reabilitação cardíaca não chega a 97% dos doentes Imprimir e-mail
15-Feb-2010
A reabilitação cardíaca, uma arma terapêutica para pessoas com doença cardiovascular, apenas abrange 3% do universo de 18 mil a 20 mil doentes que a deviam fazer. O conjunto de procedimentos, de ordem física, psicológica e social, proporciona ganhos de saúde, havendo estudos que apontam para uma redução de 31% na mortalidade cardíaca. Em Portugal, apenas existem sete centros públicos, que não vão além do Porto e Lisboa.


Os programas de reabilitação cardíaca, dirigidos a indivíduos com doença coronária, têm taxas de sucesso irrefutáveis, mas a taxa de referenciação "é irrisória em Portugal, não chegando a 3%" do número de indivíduos que o devia fazer, de acordo com Miguel Mendes, cardiologista do Instituto do Coração, em Lisboa.

De acordo com um estudo publicado este ano referindo dados de 2004, só 267 doentes iniciaram um programa de reabilitação, quando o número de candidatos era de 17272, ou seja, apenas 1,5% o fizeram.

Ana Abreu, coordenadora do grupo de estudos de fisiopatologia do esforço e reabilitação cardíaca e cardiologista no Hospital de Santa Marta, acredita que há vários constrangimentos neste processo, que tem taxas médias de adesão de 43% em média na Europa mas que chega a ser de 80%. "Um dos problemas é haver poucos centros no País. Os recursos dos hospitais são limitados e este é um programa oneroso e que obriga à afectação de muitas pessoas. Além disso, este trabalho necessita de um espaço físico amplo, que normalmente não existe", refere a especialista.

O estudo sobre reabilitação cardíaca, em que Miguel Mendes participou, inclui um levantamento dos locais onde este programa é feito. Além de só existirem 14 centros no País, estão todos centralizados nas regiões de Porto e Lisboa. Dos 14, apenas sete são públicos.

Cada programa, diz Ana Abreu, "dura cerca de 12 semanas e tem duas fases, uma de modificação de factores de risco e outra de exercício físico. Os doentes têm de ir ao hospital três vezes por semana, onde fazem uma hora de exercício". O facto de este trabalho obrigar a um grande dispêndio de tempo e envolver muitas pessoas - dietistas, cardiologistas, fisiatras, psicólogos e enfermeiros - tem sido pesado pelos hospitais e governos. E a isto junta-se a necessidade de investimento: "Cada sessão custa aos hospitais públicos cerca de 25 euros e, nos privados, ronda os 16 ou 17 euros", diz Miguel Mendes. Ao fim das 12 semanas, os hospitais teriam de gastar cerca de 900 euros/doente. "O Estado não paga os hospitais porque não está a apostar nisso e os hospitais não têm interesse em fazê-lo. Nos sete centros privados, os utentes têm de sustentar parte dos custos (600 euros).

A reabilitação cardíaca faz parte do programa nacional para as doenças cardiovasculares, coordenado por Ricardo Seabra Gomes, havendo objectivos de passar dos 3% para os 30% de referenciação. Apesar disso, esta não é uma prioridade do momento, mas sim o atendimento aos enfartes, através das vias verdes coronárias", diz Miguel Mendes.

Menos 31% de mortalidade

"Redução da mortalidade, de novos eventos de enfarte e grande satisfação dos doentes" são algumas consequências positivas destes tratamentos, diz Ana Abreu. "A reabilitação fá--los sentir que vão regressar à vida."

Os tratamentos têm conseguido reduzir a mortalidade. A meta-análise de Jolliffe, de 2001, refere que a mortalidade global destes doentes teve uma queda de 27% e que, só a nível cardíaco, a percentagem sobe aos 31. Os programas mais orientados para a parte psicológica também foram eficazes, mas não tanto como os que têm maior trabalho físico.

Fonte: Diário de Notícias